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segunda-feira, 7 de maio de 2018

Conheci a Marli em um grupo do Facebook que acho mara!: o Divagações da Vivi.
Primeiro, me chamou a atenção seus comentários, depois descobri
que é uma autora talentosa. Corri para o Wattpad quando soube que ela está lá.
E, de cara, me apaixonei pelo
Padre de Compostela.
Ah! Você quer  saber por que? Vou lhe dar logo três razões.


É uma trama atemporal: os temas tratados dizem respeito a dilemas que perpassam a
realidade humana em todas as épocas da história: o bem e o mal, a luta pelo poder e
suas consequências, a capacidade de manipular pessoas e o conhecimento como
estratégia de defesa… No entanto, tudo isso é tratado de forma bem peculiar no livro
e isso mantém nosso interesse pela trama em cada capítulo.



Tem mistério: muito mistério! Quando você acha que já compreendeu toda a trama,
um fato inusitado ou uma informação subliminar mostra que você não tem controle
algum da história.
E isso também contribui para você ansiar pelo próximo capítulo.


Tem romance: podem até achar isso uma breguice sem fim, mas, no fundo,
acho que todo mundo é como eu: adora um romance!!!
Quando há um elemento proibitivo na história, fica melhor ainda. Um padre não
deveria se apaixonar.
Pelo menos na teoria, uma vez que uma condição para ser ordenado é fazer
voto de castidade, não é mesmo?
Mas, aí aparece uma Madalena (alguma referência à personagem bíblica???)
na vida do Padre de Compostela





E olha que ainda nem citei as tags do livro no wattpad:
romancesproibidos, verdadesescondidas...





No entanto, esse não é o único livro da Marli: tem também
A    Torneira Amaldiçoada
O poeta Louco” , “A janela

Vale a  pena visitar o perfil dessa autora no Wattpad e conhecer suas obras.

Mas, não é só isso! Os livros da Marli também estão na Amazon. Acabei de ler
Matt”.
Nesse livro não faltam os elementos que tornam as obras de Marli diversão
na certa: romance e mistério. Em cada capítulo uma reviravolta, tudo o que
parece ser, pode ser ou não. As reviravoltas a cada capítulo nos mantêm
presos à história
do início ao fim. Li em duas noites, mesmo assim, porque o sono me roubou.
Pois, do contrário, teria virado a noite para saber como termina esse suspense.


Se fosse-me solicitado resumir “Matt” em uma única frase poderia ser:
Um romance nada convencional”; ou “Uma história para quem tem coração forte”.
O fato é que ler um livro da Marli é garantia de uma tensão gostosa, uma
vontade de ir
até o fim para ver como termina, uma oportunidade de exercitar a imaginação.
Porque imaginação é o que não falta a esta autora.

Por fim, além de escrever livros fantásticos, Marli tem um blog no qual trata de quê?
Livros, é claro!!! Faça uma visitinha lá para descobrir o que ela anda indicando.
O endereço é Marli Indica.

Leia você também os livros da Marli Dias Ernandez Fernandez.
E aproveite para fugir, ainda que por alguns instantes, para um mundo feito de
romance, suspense e até ação!

domingo, 4 de fevereiro de 2018

História de uma negociação trabalhista

Em um processo produtivo marcado pela automação o trabalhador já não tem poder de barganha na negociações com o patrão. A reforma trabalhista trabalhista posta em vigor recentemente  no Brasil agrava essa situação e tem como efeito imediato a fragilização do trabalhador diante do empresariado. O argumento daqueles que a defendem é de que  ela permite a inclusão de um contingente significativo de trabalhadores informais existentes atualmente. No entanto, essa inclusão não deve ser feita à custa de direitos conquistados à duras penas.

É verdade que desde os primórdios da Revolução Industrial a classe operária sempre enfrentou dificuldades para conquistar direitos, ainda que mínimos. De modo geral, sempre houve farta disponibilidade de mão de obra e o processo produtivo é organizado de modo que  o trabalhador ausente por quaisquer motivos possa ser prontamente substituído e a produção nunca se interrompa.

Ruínas da Tecelagem Santa Bárbara, localizada no município mineiro de Augusto de Lima. Imagem: Magna Santos


Por isso causa estranheza que situações como a que passamos a narrar em seguida tenham acontecido nos primeiros tempos da industrialização em Mina Gerais. Assim como na Europa e nos Estados Unidos, aqui no Brasil a indústria têxtil foi a primeira a se desenvolver. No sul de Minas Gerais e nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, a mão de obra utilizada foi essencialmente a de imigrantes. No Centro e Norte mineiros, porém, o trabalhador autóctone constituiu a principal força de trabalho, principalmente para as tarefas mais simples, que não exigiam especialização.

Para as tarefas especializadas, que exigiam conhecimentos técnicos, houve, em um primeiro momento,  a importação de mão de obra. No entanto, o alto custo representado pela contratação desses profissionais despertou a necessidade da formação de técnicos nacionais.

Alguns profissionais eram decisivos para o sucesso da empresa. O tintureiro, por exemplo, embora quase sempre fosse um profissional prático, sem maiores conhecimentos teóricos em química, detinha um saber essencial no processo da fabricação de tecidos. Isso garantia ao profissional um poder de barganha significativo no estabelecimento de suas condições de trabalho e remuneração.

Em seu livro “Fábrica: Convento e Disciplina”, Domingos Giroletti relata uma situação que exemplifica bem isto. No final do ano de 1881, a Companhia Cedro e Cachoeira, localizada no povoado do Cedro (hoje, cidade de Caetanópolis), no interior de Minas Gerais, contratou o português José Antonio da Silva como tintureiro. A empresa pagou as despesas de viagem do operário e de sua família, do Rio de Janeiro, onde residiam até a Vila Operária.

Seu contrato, de três anos , a contar de 1º de janeiro de 1882, previa a concessão de uma casa para a residência da família e remuneração de seis mil réis diários. Para fins de comparação, no ano de 1887, um ajudante de urdume ganhava 800 reais diários e um ajudante de filatório, função exercida geralmente por crianças, recebia cerca de 34 réis a hora. Findo esse prazo, o contrato foi renovado sucessivamente, sempre com aumentos substanciais na remuneração.

No ano de 1891 a empresa não se dispôs a pagar o valor exigido pelo sr. José Antonio e ele deixou o trabalho. No entanto, sua saída acarretou em queda na qualidade dos tecidos produzidos pela fábrica, os clientes passaram a reclamar e houve redução nas vendas. O tecidos produzidos pela empresa, até então conhecidos por sua alta qualidade e firmeza das cores, perderam mercado para os concorrentes. Diante disso, os acionistas pressionaram o superintendente da Companhia pela readmissão do antigo tintureiro. José Antonio da Silva retornou à empresa em condições ainda mais favoráveis.

Hoje em dia, que profissional, por mais qualificado e competente que seja, pode negociar em termos tão vantajosos com seus patrões?
  

O problema das leis que não "pegam"

Você já deve ter ouvido alguém dizer que problema do Brasil é o excesso de leis. As pessoas costumam afirmar que sempre que se identifica um problema, seja ele de ordem social ou política, logo se cria uma  lei. E dá-se por resolvido o problema.


Assim, se há um aumento no número de acidentes de trânsito, cria-se uma nova lei. Você sabia que, a partir de abril de 2018 poderá ser multado se atravessar a rua fora da faixa de pedestres? Pois é. Essa punição já estava prevista no Código de Trânsito Brasileiro, mas, não era aplicada por falta de regulamentação. A  Resolução 706/2017 acabou com o problema ao regulamentar não só o comportamento do pedestre, como também o do ciclista nas vias públicas. Resta saber se haverá efetivo cumprimento.

São incontáveis as leis que não “pegam”, ou seja, por falta de regulamentação e/ou fiscalização ou mesmo por desconhecimento da população nunca são cumpridas efetivamente.

Acontece também de sucessivas leis serem criadas com o objetivo de resolver um mesmo problema. Você sabia que existem no país inúmeras leis cujo objetivo é acabar ou mesmo impedir a corrupção? Sendo assim, esse não deveria ser o assunto número um do noticiário político e de quase todas as rodas de conversas nos dias atuais, não é mesmo? Nossa Lei maior, a Constituição Federal tenta frear a corrupção de agentes públicos ao prever, por exemplo, a possibilidade de o cidadão propor ação popular para defender a moralidade administrativa.

Mas, não é a única. A Lei Anticorrupção (Lei nº 12.846, de 1º de agosto de 2013) prevê a punição de empresas nacionais e estrangeiras pela prática de atos contra a administração pública. E tem ainda a Lei nº 12.813, de 16 de maio de 2013, que trata do conflito de interesses no exercício de cargo ou emprego do Poder Executivo Federal.

Da Lei da Ficha Limpa você já deve ter ouvido falar. Ela visa, em última instância, a proteger a probidade administrativa e a moralidade no exercício do mandato político. Fruto da iniciativa popular, essa lei prevê a punição com inelegibilidade por oito anos para o “candidato que tiver o mandato cassado, renunciar para evitar a cassação ou for condenado por decisão de órgão colegiado, aquela com mais de um juiz, mesmo que ainda exista a possibilidade de recursos.” 

Esses são apenas alguns exemplos de leis criadas com o objetivo de combater a corrupção no país. Não obstante o problema persiste. E, a julgar pelos noticiários, está longe de ser sanado. Ou pelo menos reduzido.

Analisando a história do Brasil podemos perceber que vem de longe esse costume de se criar leis com a finalidade de resolver demandas da sociedade sem atentar para o seu efetivo cumprimento. Um amontoado de normas que tratam de um mesmo assunto, o qual permanece sem solução. Em alguns casos, normas são criadas sem, nem mesmo levar em consideração, as causas reais da situação.

Margareth Rago,em seu livro “Do cabaré ao lar: a utopia da cidade disciplinar, Brasil 1890-1930” trata do “projeto de integração do proletariado e de suas famílias ao universo dos valores burgueses” desenvolvido pelos industriais na virada do século XIX para o século XX no Brasil e das estratégias de resistência dos trabalhadores a esse projeto noticiada pela imprensa anarquista.

Dentre as ações empreendidas nesse projeto estava a “desodorização do espaço urbano”, a reconfiguração da habitação proletária de acordo com novas normas higiênicas e com os valores burgueses. Isto porque os baixos salários então pagos pela indústria empurravam a classe trabalhadora para  as estalagens, os cortiços, as casas de dormidas, etc.

Essas habitações escuras, apertadas, comportando um grande número de habitantes, passaram a ser consideradas pela burguesia como causadora de doenças que inutilizavam o operário trazendo prejuízos para a indústria.

Para adequar a moradia dos trabalhadores foram criadas uma série  de normas. Em 1886, por exemplo, foi decretado o Código de Postura do Município de São Paulo, com um capítulo especial sobre “Cortiços, Casas de Operários e Cubículos”. Esse capítulo  trazia as regras para construção da habitação dos pobres.

No entanto, anos depois, em 1894, o Código Sanitário do Estado de São Paulo determinou a proibição novos cortiços e a eliminação dos já existentes, o que demonstra que a lei anterior não fora eficiente.

Parece, porém, que mesmo uma segunda lei não foi suficiente para erradicar as construções improvisadas, pois, já no século seguinte, em 1917, “o Doutor Clemente Ferreira, presidente da Liga Paulista contra a Tuberculose, afirmava que continuava a ser exercida a inspeção sanitária nas habitações operárias, intimando os moradores através de multas a observarem os regulamentos da polícia sanitária.”

Criar leis sem prover o seu efetivo cumprimento é uma maneira de não se envolver com a efetiva resolução de problemas. A situação descrita no livro mostra como uma classe social privilegiada responsabiliza outra, menos favorecida, pelos problemas sociais. A moradia insalubre do pobre é a causa das doenças. Sendo assim, torne-se ela proibida por decreto. Tivesse o operário melhor remuneração pelo seu trabalho continuaria ele habitando os cortiços desconfortáveis e apinhados?
  

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Uma imagem, muitas leituras.

Muito do que sei, aprendi com minha avó. Meus sobrinhos poderão dizer algo semelhante quando tiverem a minha idade. Afinal, aprendem tanto com o vovô! Meu pai, de modo muitas vezes inconsciente, vai imprimindo na memória de seus netos sua visão de mundo, moldando assim, traços importantes em sua personalidade.


Avô e seus dois netos. O avô (Daniel) carrega a bandeira da Folia de Reis; os netos estão caracterizados como reis magos: Gaspar (Daniel) e Baltazar (João Pedro)


Esta foto foi tirada em 27 de janeiro de 2018, na comunidade de Mel Tanque, município de Santana de Pirapama, Minas Gerais, Brasil, em dia de janta de folia. Nela aparecem um avô e seus dois netos. O avô carrega a bandeira de Santos Reis.

A bandeira de Santos Reis aparece à frente dos guarda-mores (representantes dos reis magos: Gaspar, Melchior e Baltazar), na folia de reis. Na bandeira aparecem as figuras dos três reis, montados em seus dromedários, e da estrela que os guiou até a Lapa de Belém, onde estavam hospedados São José, Nossa Senhora e o Menino Jesus. A bandeira que aparece nesta foto pertence à folia de reis dos Bertoldos. O avô, que é folião veterano desta folia, aparece na imagem com um indisfarçado sorriso. Está pleno. É veterano, tem consciência de sua finitude. Mas, ao mesmo tempo sabe-se imortal na figura de ambos os netos.

Os netos compreendem a plenitude do momento. Por isso, a pose solene. Quem os conhece no dia-a-dia, tão crianças levadas, têm a dimensão exata do que os move no momento do clique: solenidade e respeito. Investidos que estão do personagem - são representantes dos reis magos na folia de reis, são fardeiros, são guarda-mores e posam para a foto ao lado do avô - trazem o semblante suntuoso.

Embora datada, esta é uma imagem atemporal. É a representação do que chamamos rupturas e  permanência em história. A janela, pano de fundo, já não é de madeira tosca, traz o vidro e o metal em sua composição. A qualidade da imagem foi garantida pela luz elétrica e até mesmo pelos atributos da câmera (ruptura). Por outro lado, traz a representação de uma tradição presente na família há, pelo menos cinquenta anos e, na sociedade ocidental moderna, desde a Idade Média (permanência).

Esta é apenas uma leitura dessa imagem. Qual é a sua leitura? Escreva nos comentários abaixo as suas percepções.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Euterpe Centenária

Quando cheguei a Caetanópolis, há mais de uma década, algo me chamou a atenção desde o primeiro instante. Todas as tardes, após o trabalho, seguia para a Avenida Maestro Zé Bedeu, aquela que margeia o córrego Traíras e que é utilizada por boa parte dos moradores da cidade como pista de cooper. No afã de manter hábitos saudáveis, gastava meus passos ao longo da avenida e, durante o trajeto ia reencontrando amigos e fazendo novas amizades.

Ao longo do caminho meus ouvidos eram brindados a cada instante com um som diferente. E não era o soar das buzinas dos automóveis ou as conversas em torno dos portões. A trilha sonora das minhas caminhadas era composta por acordes, um tanto inseguros,  melodias, às vezes desafinadas, extraídas ora de clarinete, ora de um trompete. Quis saber mais sobre aquilo e então descobri que na minha nova cidade havia uma banda de música. Que também era uma escola. E que aqueles sons aleatórios que ouvia todas as tardes eram produzidos pelos alunos em seus deveres de casa.

Poucos meses depois chegou o convite. A Banda de Música Euterpe Santa Luzia convidava para seu concerto de final de ano. Eu, naturalmente, não perderia esse evento por nada. Como sempre, naquela sexta-feira saí bem tarde do trabalho. Mas, não me preocupei muito com isso, afinal, um concerto de banda de música de uma cidadezinha do interior não deve ser um evento muito concorrido, então, ainda que chegasse em cima da hora, seria fácil encontrar uma boa posição para apreciar o certame.

Concerto de Aniversário da Banda de Música Euterpe Santa Luzia, realizado no Clube da cidade em dezembro/2013

Qual não foi a minha surpresa ao encontrar o local lotado! Todas as cadeiras estavam ocupadas e algumas dezenas aguardavam, em pé, o início da apresentação. O jeito foi me misturar à multidão e encontrar um cantinho onde pudesse avistar minimamente o palco. As pessoas, em suas melhores roupas, comentavam o programa, composto por clássicos da música mundial e dobrados e valsas de autoria de músicos da banda. E, quando o espetáculo começou esqueci o incômodo de estar em pé e espremida. Era só enlevo!

Naquele exato instante decidi que Caetanópolis seria a cidade onde passaria a viver de modo definitivo.  Aqui educaria minha filha. Este era, sem dúvida, o cenário perfeito para os meus projetos de vida. Nem preciso dizer que minha filha frequentou as aulas de iniciação musical e tornou-se musicista da banda.

O ensino da música é tão importante que tornou-se obrigatório na educação básica, nas redes pública e particular, com a publicação da  Lei nº 11.769, no Diário Oficial da União no dia 19 de agosto de 2008. Todos nós sabemos que, infelizmente, embora tanto tempo tenha se passado desde a publicação da Lei, que previa o prazo de três anos para que a disciplina fosse incluída entre as obrigatórias na grade curricular em todas as escolas do território nacional, ainda são pouquíssimas as experiências bem sucedidas de ensino dessa disciplina no ensino regular.

Concerto de Aniversário da Banda de Música Euterpe Santa Luzia, realizado no Clube da cidade em dezembro/2013


Em Caetanópolis, a Banda de Música Euterpe Santa Luzia representa uma excelente oportunidade para as famílias que pretendem oferecer uma educação de qualidade para suas crianças e adolescentes. Ao longo do tempo, a escola de música vinculada à corporação musical formou gerações de músicos, oferecendo ensino de qualidade, contribuindo para a formação geral de seus alunos e preparando-os para cursos superiores de música.

O atual maestro da banda, Basílio Nascimento, é o exemplo mais pertinente da importância do trabalho de formação desenvolvido pela Euterpe. Nessa escola recebeu, a partir do ano de 2003, a  formação básica em Teoria Musical e Solfejo. Em 2011, Basílio concluiu o bacharelado em Música, com habilitação em Clarinete, pela Universidade do Estado de MInas Gerais (UEMG). Nos anos seguintes, atuou como professor em diferentes instituições até assumir, no início de 2016, a regência da Euterpe Santa Luzia.

No ano de 2009 apresentou-se como solista à frente da Banda de Música Euterpe Santa Luzia, o clarinetista Eduardo Gonçalves dos Santos, interpretando o Concerto para Clarinete e Orquestra de Wolfgang Amadeus Mozart, sob a regência do Maestro Valdomi Carneiro do Nascimento. Eduardo é doutorando em Execução Musical pela UFBA (Universidade Federal da Bahia), mestre em Execução Musical também pela UFBA e bacharel em Clarinete pela UEMG. Atualmente, é professor na empresa Faculdade De Música Es e Clarinetista na empresa Orquestra Sinfônica do Estado do Espírito Santo. Os primeiros passos para a carreira de sucesso foram dados na escola de música da Euterpe Santa Luzia.

Esses são apenas dois exemplos, dentre inúmeros, de ex-alunos que seguiram carreira acadêmica. No entanto, há aqueles que, mesmo sem um curso superior na área, aproveitaram a sólida formação recebida para construir uma trajetória profissional de sucesso, compondo bandas de bailes renomadas ou mesmo seguindo carreira solo.

Neste 13 de dezembro de 2017, a Euterpe completa 100 anos de existência oficial. Dentre as atividades desenvolvidas para comemorar a data, está a publicação, em sua página no Facebook, de uma série de posts sobre fatos relevantes de sua história. Os comentários estão recheados de relatos orgulhosos de ex-alunos, o que comprova tudo o que foi dito acima.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Neste 25 de novembro estive em Santana de Pirapama

Neste 25 de novembro estive em Santana de Pirapama. Não na Igreja Matriz - hoje elevada à categoria de Santuário - onde fui batizada, me casei, tive a minhas Missas de 15 anos, de formaturas e provavelmente será rezada a de sétimo dia. Tampouco estive na E.E “Cel. Domingos Diniz Couto”, onde estudei por longos anos e vivi parte de minha trajetória profissional.


A  manhã de sábado, passei na Escola Municipal “José Maria da Fonseca”. O convite era para uma Feira Literária. E qualquer evento ligado a livros e literatura é lugar onde gosto de estar. Desde o primeiro instante fui seduzida por aquele clima peculiar de escola, cheia de crianças e adolescentes, onde a cada instante somos convidados a aprender. Este foi o meu ambiente por tanto tempo! E mesmo depois de mais de uma década, a identificação é imediata. E assim, em poucos minutos me vejo coordenando um grupo de alunos na tarefa de decorar uma sala de aula.




Fui preparada para uma palestra; ou para dar o meu depoimento de leitora apaixonada. Por isso mesmo não estava pronta para o que me aguardava: ser a escritora homenageada de uma das turmas. Até mesmo porque ainda me falta muito para me tornar uma escritora. Desde muito cedo me apaixonei pelos livros. E, de tanto ler, era natural que meu principal meio manifestação fosse a palavra escrita. E foi assim que surgiram os primeiros versos, ainda na minha adolescência.

Anos depois reuni meus singelos poeminhas em um volume ao qual denominei “Devaneios”. Porque eles não passavam disso mesmo: devaneios de uma adolescente cheia de esperanças, misturada ao pó do caminho da escola, cujo sonho maior era vencer a pobreza e o isolamento.

Em todos aqueles anos de luta - caminhar por duas horas para chegar à escola, atravessar o Rio da Velhas de canoa, etc - tudo o que desejava era me formar, ter um emprego e conquistar minha independência financeira. É bem verdade que Dona Márcia, Dona Lenice e Dona Carminha, professoras de Geografia, História e Educação Moral e Cívica, respectivamente, deram um empurrãozinho forte quando me convenceram de que, de minha turma da quinta série do ano de 1986, poderia sair o(a)  futuro(a) presidente do Brasil.

Eu não me tornei presidente do nosso país. No entanto, descobri que poderia me tornar sujeita da minha própria história. O que isso significa? Fazer escolhas que promovam o meu desenvolvimento como ser humano e contribuam para o desenvolvimento daqueles que me cercam. Minha própria trajetória me faz acreditar na Educação como o verdadeiro instrumento de transformação social.

E neste último sábado essa minha certeza se tornou ainda mais sólida. “Devaneios”, o livro escrito por uma adolescente, foi declamado por adolescentes. E cada leitor começava a sua fala assim: “o poema com o qual me identifico é esse…”. Essa identificação ocorre porque, embora muito tempo tenha se passado, as dúvidas, os sonhos, as incertezas dos adolescentes de hoje não são diferentes dos meus quando escrevi os poemas. A adolescência é um tempo mais de perguntas do que de respostas.


Eu também me identifiquei com aqueles jovens. Assim como eu, eles são oriundos da zona rural. É verdade que agora chegam à escola de ônibus. No entanto, deixam suas casas, suas famílias e seus costumes diariamente pelo sonho de se formarem, ter uma profissão e independência financeira.

Mas é uma jovem em especial que me faz perceber que estou ali menos pelo que escrevi do que pela minha trajetória. É quando ela diz: “você é minha inspiração. Conheço sua história e sei que é possível para mim também”. Daiana é só uma menina; mas, já tem filho e marido. Ainda assim se mistura aos demais da sua idade, no afã de recuperar o tempo perdido e concluir a sua educação formal. Como eu no passado, também ela se levanta quando ainda está escuro. E vai driblando as dificuldades próprias de quem mora na roça e tem que se deslocar até a cidade para estudar. Olho em seus olhos e vejo esperança.

E assim, passado, presente e futuro vão se misturando em minhas vistas turvas pelas lágrimas. Valeu a pena meu passado de luta! Sou espelho para essa jovem que hoje constrói seu futuro.

Nem preciso dizer que minha manhã  foi de muita emoção! E de muitos reencontros. Reencontros com colegas da escola, reencontro com colegas de trabalho, amizades verdadeiras que não esmaeceram com o tempo.